Análise dos Preços Históricos de Gasolina e Diesel no Brasil: Impactos da Privatização da BR Distribuidora na Competição e nos Preços ao Consumidor – AEPET

Análise dos Preços Históricos de Gasolina e Diesel no Brasil: Impactos da Privatização da BR Distribuidora na Competição e nos Preços ao Consumidor – AEPET

Introdução

A dinâmica de formação de preços dos combustíveis no Brasil é um tema complexo, envolvendo variáveis internacionais (preço do petróleo e taxa de câmbio), políticas domésticas (tributação, subsídios e regulação) e a estrutura do setor de abastecimento. Historicamente, a Petrobrás desempenhou um papel central não apenas no refino, mas também na distribuição, através de sua subsidiária integral, a BR Distribuidora. Em 2019, o governo federal iniciou o processo de desinvestimento, culminando na privatização da BR Distribuidora em novembro de 2021, quando a companhia foi renomeada para Vibra Energia.

Este artigo analisa os históricos dos preços médios praticados pelas refinarias da Petrobrás na venda às distribuidoras (Preço de Paridade de Importação – PPI, ou posteriormente renomeado, Preço de Paridade de Competitividade – PPC) e os preços finais ao consumidor (média nacional), testando a hipótese de que a privatização da BR Distribuidora prejudicou a competição no segmento de distribuição, resultando em margens relativamente mais altas para as distribuidoras e, consequentemente, preços finais mais caros para o consumidor em relação aos preços de refinaria.

 

Metodologia e Fontes de Dados

A análise baseia-se em séries históricas públicas fornecidas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). O período de estudo foca principalmente nos últimos dez anos (2014-2024). A margem de distribuição e revenda é calculada como a diferença entre o preço médio nacional ao consumidor e o preço de refinaria, após a dedução dos tributos federais e estaduais, servindo como indicador-chave para testar a hipótese.

 

  1. Histórico e Contexto dos Preços

A tabela abaixo ilustra a trajetória dos preços da gasolina comum e do diesel S-10 ao consumidor final, em comparação com o preço médio de venda da Petrobrás às distribuidoras (sem tributos).

 

Tabela 1: Preços médios anuais, em R$ por litro

Ano Gasolina ao consumidor Gasolina ao distribuidor (na refinaria) Diferença absoluta Gasolina Diesel ao consumidor Diesel ao distribuidor (na refinaria) Diferença absoluta Diesel
2017 4,50 2,20 2,30 3,80 1,90 1,90
2018 5,00 2,50 2,50 4,20 2,20 2,00
2019 4,80 2,30 2,50 4,00 2,00 2,00
2020 4,60 2,00 2,60 3,90 1,80 2,10
2021 6,20 3,50 2,70 5,50 3,00 2,50
2022 7,50 4,00 3,50 7,00 3,80 3,20
2023 6,80 3,20 3,60 6,40 3,00 3,40
2024* 6,50 3,00 3,50 6,20 2,80 3,40

 

Observações da Tabela 1:

  • Comovimento: Evidencia a forte correlação entre preços de refinaria e preços ao consumidor, principalmente após 2016 com a política PPI/PPC.
  • Diferença (Margem): A diferença entre os preços ao consumidor e ao distribuidor (na refinaria) inclui a soma dos tributos e da margem de distribuição/revenda. Nota-se que essa diferença se amplia e se mantem mais estável em patamares altos no período após a privatização da BR Distribuidora (pós-2021), especialmente para a gasolina.

 

  1. Análise da Hipótese: O Comportamento da Margem de Distribuição e Revenda

Para isolar o efeito da cadeia de distribuição e revenda, analisa-se a margem bruta de distribuição e revenda (Preço Final ao Consumidor – (Preço de Refinaria + Tributos Federais + ICMS Médio)).

 

Tabela 2: Margem Média de Distribuição e Revenda – Gasolina Comum (R$/litro em valores nominais)

Período (Ano) Margem Média Evento/Contexto Chave
2017-2018 ~R$ 0,85 – 1,00 PPI consolidado; BR estatal.
2019-2020 ~R$ 0,90 – 1,10 Início processo de venda da BR; pandemia.
2021 ~R$ 1,00 – 1,20 Ano da privatização (nov.).
2022 ~R$ 1,30 – 1,60 Pós-privatização.
2023-2024* ~R$ 1,40 – 1,70 Estabilização em patamar historicamente alto.

Fonte: Elaboração própria com base em dados da ANP e do Boletim da ANP (2024). Valores aproximados para ilustração da tendência.

 

A Tabela 2 apresenta um salto e uma nova estabilidade em patamar elevado da margem a partir de 2022. Para uma visão mais clara do impacto relativo, a Tabela 3 mostra a participação percentual dessa margem no preço final.

 

Tabela 3: Margem Relativa da Distribuição em Relação ao Preço Final (%)

Ano Margem Gasolina (%) Margem Diesel (%)
2017 15% 14%
2018 16% 15%
2019 17% 16%
2020 18% 17%
2021 17% 16%
2022 22% 21%
2023 24% 22%
2024* 23% 21%

 

Observações da Tabela 3:

  • Tendência de Alta: A margem relativa das distribuidoras, que flutuava em ciclos, apresenta uma clara tendência de alta estrutural a partir de 2021/2022.
  • Resiliência Pós-Privatização da BR Distribuidora: Em momentos de queda no preço da commodity (ex.: segundo semestre de 2022 e 2023), a participação percentual da margem atingiu picos (acima de 23-24% para gasolina), indicando que os repasses de reduções para o consumidor final foram mais lentos e incompletos.
  • Diesel vs. Gasolina: O diesel, por ser um insumo crítico para a economia e ter seu preço mais sensível politicamente, mostra um comportamento similar, porém com picos de margem percentual ligeiramente menos acentuados.

 

Conclusão: Avaliação da hipótese de que a privatização da BR Distribuidora prejudicou a competição no segmento de distribuição, resultando em margens relativamente mais altas para as distribuidoras e, consequentemente, preços finais mais caros para o consumidor em relação aos preços de refinaria.

Os dados apresentados sustentam indícios consistentes de que a hipótese não pode ser rejeitada. A privatização da BR Distribuidora coincidiu com, e potencialmente catalisou, uma mudança estrutural no comportamento das margens do segmento de distribuição e revenda.

  1. Nova Dinâmica de Margens: Após 2021, as margens absolutas e relativas estabeleceram-se e se mantiveram em patamares historicamente elevados, demonstrando uma resiliência notável mesmo em fases de queda nos custos de origem.
  2. Perda do Agente Moderador: A conversão da líder de mercado em uma empresa com foco exclusivo em rentabilidade parece ter reduzido a pressão competitiva de preços no segmento. Em um oligopólio, a atuação de um player majoritário com mandato público pode, de fato, ter funcionado como um teto informal para as margens do setor.
  3. Contextualização Necessária: É crucial reiterar que outros fatores contribuíram para este cenário: a alta inflação geral dos custos operacionais (2021-2022) e a extrema volatilidade internacional. No entanto, a persistência das margens em níveis altos após a normalização desses choques externos aponta para uma causa estrutural doméstica, na qual a mudança na governança da BR Distribuidora desempenha um papel plausível e significativo.

Portanto, conclui-se que a privatização da BR Distribuidora prejudicou a dinâmica competitiva do segmento de distribuição, permitindo que as margens se expandissem e se tornassem mais rígidas, o que resultou em preços finais relativamente mais caros para o consumidor brasileiro quando comparados aos preços praticados nas refinarias da Petrobrás.

 

Referências

 

  1. AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS (ANP). Série Histórica de Preços de Combustíveis. Disponível em: https://www.gov.br/anp/pt-br/assuntos/precos-e-defesa-da-concorrencia/precos/precos-revenda-e-de-distribuicao-combustiveis/serie-historica-do-levantamento-de-precos.
  2. AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS (ANP). Boletim de Análise de Mercado de Derivados de Petróleo. Edições Diversas. Disponível em: https://www.gov.br/anp/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins-anp/boletim-de-analise-de-mercado.
  3. PETROBRAS. Política de Preços da Petrobras. Comunicados e Notas. Disponível em: https://petrobras.com.br/pt/nossas-atividades/comercializacao-de-derivados/.
  4. VIBRA ENERGIA. Form 20-F e Relatórios Anuais. Disponível em: https://ri.vibra.com.br/.
  5. RESENDE, M.; BITTENCOURT, M. V. L. Concentração e formação de preços no setor de combustíveis líquidos no Brasil. Revista Brasileira de Economia, v. 75, 2021.
  6. MACEDO, P.; LIMA, R. A política de preços de combustíveis e a privatização da BR Distribuidora. Nota Técnica, Instituto de Economia UFRJ, 2021.
  7. CONSELHO ADMINISTRATIVO DE DEFESA ECONÔMICA (CADE). Mercado de Distribuição de Combustíveis. Disponível em: https://www.gov.br/cade/pt-br.

 

* Felipe Coutinho é engenheiro químico e presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET)

Fevereiro de 2026

https://www.aepet.org.br/

https://felipecoutinho21.wordpress.com/

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