Engenheira mecânica quebra barreiras e inspira mulheres no setor automotivo em Arapiraca | ASN Alagoas
Ela cresceu em meio ao barulho de ferramentas, óleo de motor e peças espalhadas pela oficina do pai, em Campo Alegre. Aline Ferro teve a oportunidade de se tornar advogada, mas largou tudo para fazer o que realmente gosta: mecânica de automóveis. Hoje a engenheira mecânica é um exemplo de inspiração para outras mulheres que atuam no segmento automotivo em Arapiraca.
Para realizar o sonho de abrir a sua própria oficina, Aline passou por cima dos estereótipos de gênero e quebrou as expectativas da família para mostrar que a paixão pode ser a principal ferramenta para a realização profissional.
A oficina do pai, José Petrúcio Correia, foi o principal sustento da grande família de Aline Ferro, que tem 15 irmãos. A rotina dos serviços mecânicos sempre fizeram parte da vida da família, tanto que a maioria resolveu seguir a profissão do patriarca, com exceção de cinco: uma costureira, um policial militar, um motorista, uma dona de casa e uma psicóloga. Mas os planos do mecânico para a filha Aline, que na adolescência ajudava na oficina, lavando peças e fazendo outros serviços simples, também eram diferentes.
Livros deram lugar a ferramentas
Ao concluir o ensino médio, a jovem foi aprovada no curso de direito, mas o que seria o início da realização do sonho de José Petrúcio durou pouco. Nas férias, durante uma visita aos irmãos que moram no Rio de Janeiro, tudo mudou. “Viajei para passar 15 dias e quando estava perto de voltar, meu irmão mais velho me perguntou se eu queria ficar por lá de vez. Ele sugeriu que eu fizesse engenharia mecânica e falou sobre um vestibular que aconteceria em poucos dias. Fiz a prova e passei”, afirma.
A mudança de planos, no entanto, não agradou José Petrúcio. Quando telefonou para os pais para contar da decisão, José Petrúcio ficou chateado e se recusou a falar com a filha, mesmo quando ela voltava para casa durante as férias. “Era como se não tivesse ninguém ali, ele simplesmente me ignorava”, relata.
Mesmo assim ela seguiu em frente, com o apoio da mãe, dos irmãos e do namorado que conheceu em um cursinho pré-vestibular, que anos depois se tornaria seu marido.
O afastamento entre pai e filha durou todos os quatro anos de faculdade, entre 2012 e 2017, mas a reconciliação aconteceu durante a formatura dela. “Na verdade não tivemos uma conversa sobre isso. Não foi preciso. Ele chegou de surpresa na minha formatura e comemorou comigo. Depois foi como se nada tivesse acontecido”, relata.
Apoio contra o preconceito de gênero dentro da oficina
Apesar de atuar numa profissão majoritariamente masculina e machista, Aline contou com o apoio dos irmãos, que evitaram situações em que ela pudesse sofrer preconceito de gênero. Ainda na faculdade, ela ajudava os irmãos na oficina de tratores e outras máquinas pesadas. A confiança deles no trabalho dela fez com que ela se sentisse segura e “blindada” contra o machismo. “Eu sei que tem muito preconceito contra mulher que atua nessa área. Muitos homens não acreditam que nós somos capazes de fazer os mesmos serviços que eles fazem, porque é um trabalho pesado, mas a única diferença é a força física. Só que hoje existem ferramentas e equipamentos que reduzem o esforço físico e possibilitam que a gente trabalhe de igual para igual”, explicou.
Após a formatura, Aline retornou para Arapiraca e chegou a dar aulas de Engenharia Mecânica em uma faculdade em Maceió e fez mestrado na mesma área, mas ela só se sentia realizada mesmo dentro da oficina. Após o casamento e a gravidez do primeiro filho, trocou as viagens constantes a Maceió por um espaço cedido na oficina do irmão, em Campo Alegre, em 2021. Desse período, ela conta que lembra apenas de duas ocasiões em que foi alvo de preconceito escancarado por ser mulher e atuar em serviço automotivo.
“Um cliente chegou na oficina para trocar o calço do motor e quando viu que era eu que iria fazer o serviço, disse que eu não iria mexer no carro dele, e que queria que o Daniel fizesse o serviço, mas meu irmão se recusou a fazer, para me apoiar”, contou.
Em outra situação mais recente, em que precisou comprar uma peça para fazer um serviço, o vendedor tentou enganá-la por achar que ela não entendia do assunto. Entregou uma peça diferente das especificações que ela pediu e duvidou que ela soubesse usar o instrumento para tirar as medidas da peça. “Quando eu usei o paquímetro e expliquei detalhadamente porque a peça que ele me entregou não servia, ele perdeu o sorriso de deboche e só então acreditou que eu entendia do que estava falando. Eu não revidei, porque não sou capaz de fazer isso. Mas é uma situação que cansa, porque se fosse um homem, seria diferente”, falou.
Elas no Volante e o empoderamento das mulheres no automotivo
Mesmo lembrando somente dessas situações, Aline Ferro conhece muitas outras histórias de mulheres que sofreram preconceito por trabalhar no serviço automotivo. Ela é uma das integrantes do grupo “Elas no Volante”, uma iniciativa do Sebrae para fortalecer a participação feminina no segmento e que hoje reúne mais de 40 mulheres que trabalham no setor automotivo em municípios do Agreste.
Como uma das principais incentivadoras, ela mostra que é possível exercer um trabalho considerado masculino, mas sem perder a feminilidade. “Claro que não dá para ter a unha feita o tempo todo fazendo esse tipo de trabalho, mas o fato de ficar suja de graxa não significa que sou uma mulher masculinizada. Gosto de mostrar isso para as outras mulheres que trabalham nesse setor, que não é o nosso trabalho que define a nossa feminilidade”, ressalta.
No grupo, elas trocam experiências, criam amizades e se apoiam mutuamente. Criado em 2024, o programa pretende realizar novos encontros em 2026. “O Mulheres no Volante foi criado quando percebemos que o setor automotivo é formado também por mulheres e que elas precisam ter voz. Pela primeira vez elas tiveram suas dores ouvidas, porque não é fácil atuar em um meio em sua maioria feminino e cercado de estereótipos “, explica Stheffany Lóz, trainee do Sebrae e gestora do grupo.
Segundo ela, além de se tornar um meio para formação empreendedora dessas profissionais, o grupo também se tornou um ponto de apoio. “Elas perceberam que as dificuldades que elas enfrentam são comuns a todas e, então passaram a se apoiar, trocar ideias, criar amizades e parcerias, tornando o ambiente das oficinas mecânicas não só mais amigável para elas como também para as clientes”, ressalta.
Sebrae está presente em momentos decisivos da trajetória
Ao se render à paixão de lidar com motores e afins, Aline Ferro descobriu no Sebrae um grande apoiador em sua trajetória. Antes do grupo Mulheres no Volante, ela já havia contado com o apoio da instituição para se formalizar como microempreendedor individual (MEI) e participando de capacitações.
Após passar anos trabalhando em um espaço cedido pelo irmão na oficina dele em Campo Alegre, o Sebrae também estava junto quando ela decidiu abrir sua própria oficina, meses atrás. A virada de chave aconteceu em junho, durante a viagem da caravana de Arapiraca para o Alagoas Summit, que aconteceu em Maceió.
“Logo no início da viagem, fizeram algumas apresentações no ônibus e uma psicóloga achou interessante saber que eu trabalho com mecânica e sentou ao meu lado. Quando ela perguntou porque eu não tenho uma oficina em Arapiraca, eu não soube responder. Percebi que não tinha lógica eu viajar todos os dias para Campo Alegre se posso trabalhar aqui, onde eu moro. Voltei da viagem decidida a abrir minha oficina. Junto com meu marido e irmão, levantei as pilastras e equipei com as ferramentas necessárias para começar”, conta.
Além de possibilitar trabalhar praticamente em casa, a Ferro Oficina Automotiva também vai possibilitar aumentar a família. Ela e o marido planejam ter mais um filho em breve, e Aline garante que é possível conciliar o trabalho com a maternidade. “Com as ferramentas necessárias, não é necessário fazer esforço e dá para trabalhar durante a gravidez. Fiz isso quando tive meu primeiro filho, e com os planos de ter mais um, trabalhar na minha própria oficina facilita muito. Posso fazer meu horário de trabalho, se precisar, posso cuidar deles durante o dia e trabalhar à noite, para entregar o serviço cedinho no outro dia”, explica.
Hoje, aos 38 anos, Aline Ferro se sente realizada na vida profissional e pessoal. O pai, que inicialmente se opôs à decisão dela de atuar na área automotiva, hoje é um grande parceiro, mesmo com a idade avançada. “Mesmo com 82 anos, peço a ajuda dele em alguns serviços. Às vezes chega algum carro antigo, como fusca e kombi, e ele vem com todo amor me ajudar”, conta, com orgulho.
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